quinta-feira, 31 de julho de 2014

A jorna

Os anos 50 foram particularmente duros para a comunidade dos avós de Sofia.
Nas pequenas vilas ocupadas maioritariamente por trabalhadores à jorna, a maioria das habitações era, em regra, tão pobre que as casas, construídas de taipa e cobertas por telha de canudo, tinham apenas o andar térreo, cujo chão era de terra batida ou tijolo. A porta da rua tinha um postigo por onde permeava a luz do dia. Nem todas eram desprovidas de janelas, tidas então como um luxo e, logo, desnecessárias (1). O facto das casas serem integralmente caiadas conferia-lhes uma leveza e limpeza distintivas, que contrastava com a herança diária da terra seca e empoeirada agarrada à roupa, botas, quando as havia, e pele dos jornaleiros, seus habitantes. Os lenços na cabeça lembravam muito os habitantes de outras regiões mundiais mais agrestes em temperatura e secura, em luminosidade e em desertidão da paisagem, servindo o intento de melhor suportar a jorna de sol a sol, absorvendo o acumulado suor que tanto escorria por entre os cabelos, e protegendo os crânios nos percursos de quilómetros pedestres entre a habitação e o ponto de trabalho dos jornaleiros. Esses, homens ou mulheres, dedicavam-se a esculpir-se numa magreza digna enquanto lavravam, ceifavam ou colhiam o que a mando se determinava.
A imagem que Sofia tinha do esforço e da entrega destes jornaleiros não vinha de ter assistido, décadas antes, à sua demanda, nem provinha de uma qualquer descrição, ainda que pudesse ser em primeira mão da sua própria avó, tão coloridas de emotividade e de dignidade que eram as suas descrições. Não. A imagem provinha de um episódio, caricato e importante, a que Sofia e o irmão assistiram, e que ilustrava bem o que teria sido, em tempos, a verdadeira epopeia daqueles trabalhadores da ceifa e da lavra. A saber.
Um dos primeiros dias de escola de Sofia, num Outubro instável, como se quer que seja para que a rega dos campos seja assegurada no final do estio, era também o primeiro dia de trabalho de uma jornaleira numa lavra de tomate das redondezas. Numa das freguesias historicamente mais pobres dos concelhos da região prosseguia a campanha de apanha do tomate, continuada devido ao prolongamento dos Verões dessa época, muito mais estáveis do que os meses que se lhes seguiam, e felizmente. Esse dia amanheceu limpo, solarengo e promissor de uma jorna longa, somando caixas de tomate e, por conseguinte, muitos escudos, não tantos como os que se gerariam num qualquer call center de hoje, mas o suficiente para que a jornaleira pudesse provir algumas necessidades pessoais simples como uma qualquer outra jovem adulta a viver em casa dos pais. Acontece que o dia se desenrolou de modo contrário ao Verão findo e mais de acordo com a instabilidade que caracterizava o mês de Outubro… e lá veio a chuva… e com o primeiro aguaceiro chegou a violência de outros, maiores e que, em crescendo, foram transformando aquele dia, nascido de uma calmaria delicada, numa verdadeira tormenta para quem não tinha, à mão, um tecto para se abrigar de imediato. Tal foi a invernada que se abateu sobre a região que desencadeou verdadeiras torrentes de adrenalina, quer em Sofia e no irmão, quer na sua mãe e nos seus avós, que se alvoroçaram com a quantidade de cascatas e trovões que se seguiam e que desciam em direção àquelas terras sequiosas. Só conseguiam pensar na jornaleira, que tão alegremente tinha seguido para o seu primeiro dia de trabalho e que deveria, agora, estar não só sob ameaça mas efectivamente a ser atacada por um mar em queda livre.  E, de facto, assim acontecia. Sabia-se que a probabilidade do facto se consumar era, por demais, absoluta, mas ainda havia uma lúgubre esperança de que a jornaleira tivesse tido a sorte de se ter recolhido para um qualquer abrigo, juntamente com os seus camaradas de trabalho…
E eis que o postigo da porta da casa dos avós de Sofia se arrepia com a violência das batidas de uma sombra no exterior, pequena mas não completamente invisível, uma vez que a porta da rua era composta por uma boa parte de madeira, mas também por uma boa parte de vidro martelado, este translúcido e resistente às batidas da sua moldura ante os ventos e as fúrias dos seus utilizadores. A avó de Sofia corre à porta… e eis a nossa jornaleira, pingando água por tudo quanto era canto, nesga ou ameaça de pleno rompimento têxtil, tão grande era a invasão desse mar flutuante por entre os resquícios de espaço entre a pele e a roupa da jorna! Tão grande a invasão hídrica que gerou uma, e maior ainda, evasão de impropérios da boca da jornaleira, que se multiplicava em queixas, desespero e raiva, os quais cresciam em catadupa à medida que ela se ia sentindo em segurança sob o telhado progenitor, ora para tirar a verdadeira imundície de lama dos joelhos para baixo, ora para violentar a restante fardamenta, arrancando-a, aquela que era agora uma verdadeira testemunha da ira dos céus. Não, nao eram “As vinhas da ira” do John Steinbeck, obra que ela mantinha na sua cabeceira e que lia nos seus tempos de dedicação literária, mas eram as tomateiras da ira, as verdadeiras culpadas daquele estado desgraçado em que a jornaleira se encontrava. Tão grande era a raiva pela jorna maldita e amaldiçoada, a qual nem tempo teve de desenvolver saudade à executora, que foi garantido desde logo que jornas iguais não se repetiriam! Tal era o oceano de lama e botas afundadas na lavra que a jornaleira nunca mais quis voltar a ver aquela cena de verdadeira batalha campal, quais homens contra deuses, que mais parecia uma verdadeira trincheira da primeira guerra mundial, embora os ratos estivessem ausentes. Não, nunca mais iria deixar-se enganar pela dita jorna, agora que sabia da verdadeira natureza da mesma e das intempéries a que tal demanda estava sujeita mas, sobretudo, das intempéries para as quais ela própria não estava preparada ou, pelo menos, a que desnecessariamente se sujeitaria, uma vez que eram ausentes da sua vida as condições desumanas e insuficientes que só pelas quais tal jorna se tornaria vital.
E, nesse dia, Sofia percebeu o que representava aquela jorna, uma verdadeira revolução mental, uma convulsão de dimensão universal: trabalhar no campo não era para todos, era uma verdadeira guerra externa e interna, mas muitos não tinham opção e tinham que ganhar essa guerra dupla e, elevando dignidade nas suas boinas, chapéus e lenços, se dedicarem, aí sim, a esculpirem a sua magreza sob o sol ardente ou a chuva ensurdecedora. E se, na época da nossa jornaleira, ainda havia a possibilidade de apanhar o autocarro para a lavra mais próxima ou de encontrar proteção dos infindáveis decímetros de lama com botas a rigor, noutros tempos a realidade não era assim tão tecnológica e funcional, tão taylorizada… A avó de Sofia realçava que tinha tido, no seu passado de ceifeira, muitos quilómetros percorridos a pé e de madrugada, em conjunto com o seu próprio irmão e mãe, a bisavó de Sofia, como tanta gente por esse país interior o fazia também, para chegar à ceifa e ocasionalmente saber, nesse instante, que naquele dia havia jornaleiros suficientes e que já não precisariam de mais mãos competentes. E com pouco mais do que pão e queijo num talego, prometendo pelo menos uma refeição, regressavam a casa pelos mesmos quilómetros antes percorridos, mas agora sob sol ardente ou chuva torrencial, dependendo da estabilidade climatérica daqueles anos, cuja informação escasseia.
A realidade contemporânea da infância de Sofia era mais suave, cheia de alternativas e esperança para quem não queria dedicar-se à jorna, garantindo que o futuro seria menos lamacento e mais glamouroso do que aquele que tinha confrontado as gerações anteriores de trabalhadores do campo. Mas o que mais chocou Sofia foi ver a indignação da jornaleira, antes tão esperançosa de que seria capaz de enfrentar o dia de trabalho pela dignidade que o seu esforço prometia, e agora verdadeiramente derrotada, não a jornaleira, mas a sua própria esperança, que ditava que trabalho é trabalho e só não trabalha quem não quer ou não precisa, pois que os restantes, precisando e querendo, assim sendo, conseguiriam. E Sofia, assustada, a ouvir os sons vibrantes e indignados da jornaleira, enquanto trovoadas e chuvadas fortes continuavam a lavar as empedradas ladeiras que serviam como ruas, percebeu que a jornaleira tinha deixado de acreditar nesse mesmo trabalho no campo, nessa jorna que, décadas antes, tinha sido o ganha-pão de tantos famintos. Tornou-se, no tempo de um só dia, tão indigno, tão difícil e tão agreste que não deixou saudades no coração da jornaleira, nem tão pouco no de Sofia que, ao ver o seu desespero, sentiu uma absoluta compaixão por aquela e por todas as outras jornaleiras e jornaleiros que teriam chegado ao lar no mesmo estado lastimável.


Na escola de Sofia não chovia nem havia lama onde afundar os pés, pelo menos na sala de aula. Felizmente.


(1) António Luis Seixas Felix da Cruz in “A Freguesia de Alvalade”, 1941.

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