quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A descida

As pedras brilhavam ao sol e, imaculadas e polidas, serviam de caminho a mais uma viagem. Para lá da torre norte haveria de ser diferente. Mais escuro, mais sombrio, mais a pique, mais doloroso, mais pesado... Servia sempre para lembrar o quanto custa voltar a este sítio. As nuvens fazem barreira e separam o breu da luz. Não existia aqui esta árvore, pensava. Tinha crescido rápido. O caminho escurecia. As pedras já não brilhavam da mesma forma, os cristais que as compunham eram agora cada vez menos organizados. A matéria tornava-se gradualmente amorfa, cinzenta, escura e fria. Os passos pesavam cada vez mais. Não era fácil deixar a zona luminosa, mas cada vez que a arma era disparada, já sabia o que fazer. A viagem demorava horas, dias, semanas, meses, era difícil contabilizar. Não havia ábacos suficientes no mundo para representar todas as viagens que tivera feito, mais ainda as que julgava ainda ter que fazer. Queria carregar com mais força, ser mais rápida, ir e voltar num só dia, mas a carga não o permitia. Teria que ter mais coragem, faltava ainda muito a percorrer. O sol ardente desvanecia-se e a lua, cheia e gelada, fazia fé de que ia chegar, muito em breve, ao desvio. Finalmente, a torre norte, longa, esguia e bela, representava o fim e o início. O medo instalava-se. Era agora hora de sentir a parte mais difícil da viagem. Parada, reparava que os músculos já ardiam, latejavam e, lentamente, sabia que deixariam de se sentir. A dor física ia passando mas a dormência não deixava que o medo se perdesse. Depois da torre norte, depois do desvio, o frio, breu e silêncio faziam com que se ouvisse a si mesma, confusa e perdida nos passos que a levavam ao final do tormento. Era um caminho que conhecia bem. Percorria-o sozinha, sem ajuda, sem companhia, sem bengala, sem esperança. Tinha de o fazer. A arma disparou. Não sabia desde quando o fazia, mas sabia que tinha de o fazer. Lentamente, sentia o ar gelado e pesado a invadir-lhe os pulmões. Respirava fundo mas o peso no peito era grande. Lutava com todas as forças para ganhar fôlego para o próximo passo, para manter a carga elevada, para continuar a caminhada, mas era sempre uma luta difícil. Um vencedor, logo vencido, mantinha o jogo em movimento. Não havia sonhos por que caminhar, apenas o medo. Medo daquela arma, que disparava e que o punha em andamento. Uma arma dura, poderosa e esmagadora. Não tinha solução, o movimento era um só, para a frente, a caminho da torre norte, pelo desvio e para o escuro, para a subida, ainda mais difícil. Era hora de se aguentar. Delicada e fina como um ramo jovem, não tinha ensaio para o caminho. Teria que o percorrer preparando a brotação do regresso. Teria que aprender, mais uma vez, que a dor se suporta em si mesma apenas quando é real, e que a imaginária não tem fim, não tem mensurabilidade, não tem limites, tudo invade e tudo rouba. A dor real é diferente. Ela tem um corpo, uma fronteira, uma causa e uma cura. A dor imaginária reproduz-se no tempo, amplia-se e recarrega-se com as incertezas e angústias da sua própria existência. É auto-replicativa, transforma-se em ideia, em conceito, em carácter. Mas não é real. Não tem corpo, não tem limites, invade e aniquila a vontade, a esperança e a regra. O caminho que percorre, mais uma vez, lembra-lhe que é preciso deixar a dor imaginária alargar e explodir, destruir e aniquilar para a dor física lhe tomar o lugar, essa sim controlada e controlável. Essa, sim, a cura para a imaginária e a causa de si própria. Os pulmões pesam cada vez mais, a pressão no peito é enorme. Ofegante, expulsa o ar com imenso esforço e olha em frente. O fim do tormento está próximo. Só mais um pouco, mais umas passadas e estará no cume de uma montanha de anos, que se acumularam nas dores que sentiu e que autoinfligiu. Não tem uma mnemónica para a sequência de eventos, mas sabe que a ordem por que se seguiram foi a necessária. A carga pesa, e muito, os músculos doem e retesam-se agora em cada impacto dos pés na rocha escura. Basalto, talvez, sem olivina. Fez-se rápido à superfície e veio de muito longe, não deu tempo para apanhar cristais pelo caminho. Verdes, encerrariam segredos de esperança para encontrar uma cura que não seria necessário criar pela dor. Quase no cume, pode agora preparar o desabar da carga. Lenta e poderosa, ela levita acima dos braços dos músculos endurecidos e não parece mais pesar. Já nem se sente. A dor imaginária desaparece lentamente e a física vai começar. Larga a carga. Restos de sonhos rasgados e mutilados, não são queridos, não são provados, são descargas da dor imaginária, que agora se desvanece. Lentamente, olha em volta. Nuvens negras e densas pairam sobre si, não consegue ver nada para além dos seus braços esticados e não consegue afastá-las porque os músculos não respondem. Cansada, já sabe que vai ter que fechar os olhos e ver o que não quer. Dentro de si, uma pequena esperança brota. Não consegue evitar. A sobrevivência não se anula , não se degrada, não se corrompe. É uma força da natureza que irrompe ainda que o mundo desabe. E como o mundo pode desabar... Sente tonturas. Não tem a certeza se consegue abrir os olhos e olhar para o horizonte curto, também lhe custa ver. Tudo custa, a vida e a morte são contínuas. Os músculos estão melhores, latejam mas reagem aos comandos. O basalto escuro fica, transitoriamente, menos áspero. Vira as costas aos sonhos rasgados, rodando os pés naquela rocha feita de massa homogénea tão feia. Rasgos nas solas dos pés, sob um corpo pesado e cansado, lembram-lhe que o caminho foi feito para ser sentido e não cumprido. A dor física desponta, deixando as certezas de que a vida emerge de novo. A sobrevivência começa a funcionar, sobe a adrenalina, ganha vitalidade. A descida no escuro parece, repentinamente, tão fácil. Nada vê mas em tudo se apoia, nas nuvens, no basalto, nas dores das feridas dos pés, nos músculos em agonia desbravada. O movimento agora é rápido, angustiante mas desejado. Precipita-se na descida. Acelera, quase tropeça, vê tudo mal mas em tudo acredita. Nuvens escuras cada vez menos densas mas que ainda a cegam, e a sobrevivência continua. Corre, acelera, agora com todas as forças que lhe restam. Sem carga pensava ser mais fácil. Mas era apenas mais rápido, efeito de memória curta, menos informação, menos preocupação, mais foco. Seguia, correndo, montanha abaixo, horas, dias, semanas, meses, anos... Mas a descida suavizava e, com menos altitude, as nuvens eram mais rarefeitas e a corrida aliviava. Lá em cima, onde os sonhos rasgados tinham ficado, onde as nuvens espessas e densas cumpriam o seu papel de os esconder e deixar no esquecimento, não era um lugar de vontade própria mas sim de instinto. Lá era o lugar de explosão da dor imaginária, sem limites, sem corpo, aniquiladora das regras pela sua infinitude. Na descida, tudo se torna mais claro. As regras surgem pela dor física e delimitada, lembram um corpo existente. Doem o suficiente para lembrar de respirar, repentinamente, o que se tinha sustido na subida. O peito explode de calor e avança até não poder mais e só vê coragem na sua frente, uma embriaguez de vontades e de alegrias que a fazem chorar. Continua a correr, de lágrimas pesadas e atrozes, que lhe saem de todo o corpo e de todo o pensamento. Dói imenso, imenso, mas dói... que bom... no final do desvio, junto à torre norte, já vislumbra a claridade. Ao longe, linhas de pedras brancas cristalinas brilham, mostrando tantos caminhos quantas as vontades. Em vales sucessivos, despontavam novas árvores, onde ninguém se lembrava que elas existiam. Não se lembrava delas mas estavam lá, pequenas e delicadas, sem nunca terem sido pisadas, ganharam vigor pela descida, pelas lágrimas, pelas dores desejadas.


A brotação é uma viagem de regresso à humanidade e à fragilidade da vida. Quanto mais rápida, melhor. E o medo... serve para nos lembrarmos que a fragilidade ainda existe.

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