quarta-feira, 30 de julho de 2014

Momentos de doçura

Finalmente acorda.
As enfermeiras levantam-se da secretária, onde fazem toda a vigilância dos sinais vitais dos pacientes no recobro, dos seus movimentos e de toda a papelada técnica que emana de uma intervenção cirúrgica, e dirigem-se a ela.
- Sente-se bem? Já aqui esteve o seu marido, mandou-lhe um beijinho.
Sofia abre brevemente os olhos para ver um relógio desfocado cujos ponteiros marcam quase duas horas, sem se lembrar muito bem se isso correspondia ao dia ou à noite.
- Obrigada. - Responde, no meio de um ligeiro sorriso. Torna a adormecer.

“Numa das muitas tardes em que visitava os avós, umas vezes para lhes fazer uma visita breve, outras para lá passar as noites de Verão enquanto a mãe cumpria o turno noturno na fábrica de transformação do tomate, Sofia sentia mais uma vez a excitação suave, a mesma alegria difusa permanente de outras vezes. A doçura do olhar silvestre do seu avô ou do olhar pacífico da sua avó fazem sempre antever momentos de grande doçura.

Não havia nada como visitar os avós.

Sofia saiu do carro depois de se despedir do pai e percorreu a calçada quente da tarde, subiu os dois degraus no passeio elevado que ladeava a casa dos seus avós e apresentou-se com um pequeno saco na entrada do seu corredor, depois de ter puxado o trinco através do postigo, aberto num sinal de confiança à comunidade.
- Olá avó!!!
- Olá minha rica netinha! Tão linda, a minha Sofia!
A avó de Sofia tinha sempre a expressão mais doce para dar tempero ao espiríto reflexivo de Sofia. Havia algo de sabedoria escondida naqueles olhos azuis, naquele corpo pequeno mas volumoso, em que sobretudo a proeminente barriga tornava a avó de Sofia a mais doce avó do mundo.

- Onde está o avô? Queria dar-lhe um beijinho.
- O teu avô está lá para cima!
A casa dos avós de Sofia tinha uma particularidade, era mais baixa que o quintal e este mais baixo que a garagem. Toda a propriedade se localizava numa região mais elevada, na última rua do lado direito de uma longa ladeira que levava à Ermida de Sta Maria, uma pequena elevação onde se situava uma pequena igreja e que representava, para a pequena vila, um ponto de encontro obrigatório para casais de namorados nas noites de Sábado e para o passeio domingueiro das famílias mais pacatas. A vigilância das planícies em volta, do moinho mais próximo, da estrada para o bairro de S. José ou da mata dos eucaliptos ali à beira, do cemitério, e até da possibilidade atmosférica de se observar a cidade mais próxima era toda feita a partir dos terrenos desta Ermida. Geralmente essa vigilância dava lugar a considerações oportunas e, muitas vezes, repetitivas acerca da evolução que a pequena vila tinha tido desde há muito, do trânsito deveras escasso e da pequenez dos veículos avistados, da construção de algumas casas de gente conhecida e, quase sempre, da localização da casa do observador, caso esta se encontrasse entre os bairros merecedores de serem avistados da dita Ermida.
Sofia seguiu pela casa dos avós, passando do corredor para a sala de jantar, desta para a zona de estar e cozinha e transpôs as fitas coloridas da porta do quintal para subir as escadas de um cinzento fresco, limitadas por uma Hedera helix à direita. A planta cobria os quase dois metros de muro que flanqueavam a escada pela direita e avisava qualquer visitante, pelo seu verde escuro intenso e pela sua presença dramática, que as plantas eram algo cultivado e acarinhado naquela casa. A hera não era a única planta nos primeiros metros da zona mais baixa do quintal desnivelado; havia um sem número de vasos de barro, plástico e vidro, bem como de garrafões de lixívia ou água decapitados , que serviam os intentos de uma floricultora afincada, a avó de Sofia. Uns no chão, outros no muro de cimento de cobertura branca, todos davam a sensação de um berçário ou porto de abrigo. Era assim que Sofia via também o coração dos avós.
Sofia atravessou o pequeno pátio, subiu os primeiros cinco degraus e seguiu pela escada que virava à direita. No topo da escada conseguiu então vislumbrar o quintal, uma mistura de largos de cimento onde se podia caminhar sem tropeçar, muros de pedra empilhada onde as lagartixas se deixavam aquecer ao sol, caminhos entre quadrados de terra onde a Prunus domestica ganhava protagonismo logo no primeiro lote à esquerda. Sofia prosseguiu, sob o sol estival de início de tarde de uma região em que a ceifa havia predominado umas décadas antes, atravessando mais dois degraus, seguidos de mais um caminho e dois outros degraus, para estar agora diante de uma pequena escadaria. 
Ao subir, espreitou para dentro da garagem. Uma motorizada velha, azul escura, de metalizados desgastados, estacionada em frente à escadaria do outro lado da garagem, lembrava os tempos de trabalho do avô de Sofia, agora substituídos por um tempo longo e escorrido, pontuado por bons momentos como o que agora a esperava.
- Oh filha! Dá cá um beijinho ao avô! Vieste sozinha? O teu irmão?
- Ficou em casa, vem mais tarde.
- E a tua mãe e o teu pai?
- O meu pai trouxe-me e já ia trabalhar, a minha mãe ficou a lavar a loiça e à noite já vai trabalhar também.  
- Então está tudo bem. Senta-te aí, puxa o banco e senta-te, filha.
Sofia traz o banco para junto do avô e senta-se ali, com um sorriso, a observá-lo a entrançar as cebolas apanhadas no punhado de terra que cultivavam a 50 metros da casa, nas terras íngremes do lado esquerdo da ladeira que levava à Ermida de Sta Maria. Nessas terras secas cresciam bem as leguminosas como a fava e a ervilha (Vicia faba, Pisum sativum) ou as cebolas e os alhos (Allium cepa, Allium sativum). Os avós de Sofia lavravam gentilmente a terra na primavera com pequenos sachos, arejando o solo e eliminando os microorganismos menos propícios às novas culturas, abriam os regos e ali deitavam as sementes de parte da sua alimentação do ano seguinte. Os produtos obtidos desta empreitada sobejavam também para os filhos que viviam mais perto, embora o verbo sobejar fosse dificilmente aplicável à dimensão da colheita obtida.
O avô de Sofia prosseguia a sua manipulação dos pés de cebola e ía construíndo a réstia, aos poucos, fazendo esticar e enrugar a pele escurecida e arroxeada das suas mãos. O ar da tarde era seco e quente, a garagem era um pouco mais fresca mas o telhado de zinco não podia aliviar os 40 ºC que se faziam sentir. De vez em quando o avô puxava a boina um pouco para trás, para deixar secar um pouco a testa humedecida do suor que despontava em virtude da posição forçada e do movimento contínuo do seu trabalho sob o calor de Agosto.  Nesses momentos breves em que a mão se deslocava à testa, Sofia podia ver mais uma vez a cor de um cigarro muito frequente nos dedos indicador e médio direitos, um cigarro tantas vezes odiado pela avó de Sofia, que praguejava cobras e lagartos pelo cheiro e neblina que tal hábito ia criando na sua sala de estar de um e cozinha de outro, sobretudo em tardes de emissão televisiva de tauromaquia espanhola ou noites de futebol.
A réstia ia crescendo e ia ganhando peso e volume, à medida que o acto de entrançar a tornava cada vez mais rica em bolbos previamente limpos da terra e das longas raízes que a ela os prendiam.
- Mais uma. Pões ali, filha? - Sofia recebeu a réstia pronta e levou-a para junto das restantes, no chão da garagem.
Finda a elaboração das réstias, o avô de Sofia pendurou-as em grandes anzóis de arame oxidado dispostos ao longo da escada de madeira encostada à parede interior da garagem, ao lado da porta para a escadaria. A parede ainda nua de reboco, com tijolos que delimitavam uma janela e porta temporariamente inacabadas, era o limite do refúgio do avô de Sofia face aos praguejos da sua avó, quando cada um torrava a paciência do outro, mais do que o sol de verão, em relação ao nevoeiro tóxico e assassino dos cigarros do avô, não sem que este ripostasse a fumar mais e com mais intensidade até que a gritaria era tão aguda que a voz do avô de Sofia se esfumava por entre os sonoros lampejos de indignação da avó. Chegados a esse limite, era a vez do avô bater em retirada.
-Vamos para baixo?
Sofia anuiu e lá desceram a escadaria, os caminhos, os degraus, mas chegados ao largo de cimento o avô virou à direita e entrou para a casinha, assim denominada por todos quantos frequentavam aquela casa, a construção de tijolo tão inacabada como a garagem, mas de maior duração, que albergava pedaços das memórias dos avós, mãe e tios de Sofia, bem como quaisquer ferramentas úteis à floricultura da avó ou às actividades agrícolas, ou outras mais lúdicas, do avô. 
A casinha era um pedaço da história da família, uma história de luta e pobreza digna, iniciada num período obscuro da história portuguesa que marcara a maior parte da vida dos avós de Sofia e a infância e juventude da sua mãe e tios.”


Mais uma vez, os olhos entreabrem-se e Sofia procura à sua volta um ponto de referência com a visão desfocada e lúgubre sob a média-luz da sala de recobro. Um sentimento de agonia apodera-se subitamente de si e o estômago parece revirar-se na tentativa de controlar um movimento de rejeição, mas a atitude corporal já não tem retorno e o corpo desenrola um movimento de vómito que expulsa pouco mais que um pequeno volume de sangue devido à intubação realizada durante a intervenção cirúrgica. Devido ao seu movimento repentino ao acordar, as enfermeiras apercebem-se rapidamente da agonia e chegam a tempo de salvar os lençóis. Segue-se a calmaria e mais um momento de sono.

Sem comentários:

Enviar um comentário