Finalmente acorda.
As enfermeiras levantam-se da secretária, onde fazem toda a
vigilância dos sinais vitais dos pacientes no recobro, dos seus movimentos e de
toda a papelada técnica que emana de uma intervenção cirúrgica, e dirigem-se a
ela.
- Sente-se bem? Já aqui esteve o seu marido, mandou-lhe um beijinho.
Sofia abre brevemente os olhos para ver um relógio desfocado
cujos ponteiros marcam quase duas horas, sem se lembrar muito bem se isso
correspondia ao dia ou à noite.
- Obrigada. - Responde, no meio de um ligeiro sorriso. Torna
a adormecer.
“Numa das muitas tardes em que visitava os avós, umas vezes
para lhes fazer uma visita breve, outras para lá passar as noites de Verão
enquanto a mãe cumpria o turno noturno na fábrica de transformação do tomate,
Sofia sentia mais uma vez a excitação suave, a mesma alegria difusa permanente
de outras vezes. A doçura do olhar silvestre do seu avô ou do olhar pacífico da
sua avó fazem sempre antever momentos de grande doçura.
Não havia nada como visitar os avós.
Sofia saiu do carro depois de se despedir do pai e percorreu
a calçada quente da tarde, subiu os dois degraus no passeio elevado que ladeava
a casa dos seus avós e apresentou-se com um pequeno saco na entrada do seu
corredor, depois de ter puxado o trinco através do postigo, aberto num sinal de
confiança à comunidade.
- Olá avó!!!
- Olá minha rica netinha! Tão linda, a minha Sofia!
A avó de Sofia tinha sempre a expressão mais doce para dar
tempero ao espiríto reflexivo de Sofia. Havia algo de sabedoria escondida
naqueles olhos azuis, naquele corpo pequeno mas volumoso, em que sobretudo a
proeminente barriga tornava a avó de Sofia a mais doce avó do mundo.
- Onde está o avô? Queria dar-lhe um beijinho.
- O teu avô está lá para cima!
A casa dos avós de Sofia tinha uma particularidade, era mais
baixa que o quintal e este mais baixo que a garagem. Toda a propriedade se localizava
numa região mais elevada, na última rua do lado direito de uma longa ladeira que
levava à Ermida de Sta Maria, uma pequena elevação onde se situava uma pequena
igreja e que representava, para a pequena vila, um ponto de encontro
obrigatório para casais de namorados nas noites de Sábado e para o passeio
domingueiro das famílias mais pacatas. A vigilância das planícies em volta, do
moinho mais próximo, da estrada para o bairro de S. José ou da mata dos eucaliptos
ali à beira, do cemitério, e até da possibilidade atmosférica de se observar a
cidade mais próxima era toda feita a partir dos terrenos desta Ermida.
Geralmente essa vigilância dava lugar a considerações oportunas e, muitas
vezes, repetitivas acerca da evolução que a pequena vila tinha tido desde há
muito, do trânsito deveras escasso e da pequenez dos veículos avistados, da
construção de algumas casas de gente conhecida e, quase sempre, da localização
da casa do observador, caso esta se encontrasse entre os bairros merecedores de
serem avistados da dita Ermida.
Sofia seguiu pela casa dos avós, passando do corredor para a
sala de jantar, desta para a zona de estar e cozinha e transpôs as fitas
coloridas da porta do quintal para subir as escadas de um cinzento fresco,
limitadas por uma Hedera helix à
direita. A planta cobria os quase dois metros de muro que flanqueavam a escada
pela direita e avisava qualquer visitante, pelo seu verde escuro intenso e pela
sua presença dramática, que as plantas eram algo cultivado e acarinhado naquela
casa. A hera não era a única planta nos primeiros metros da zona mais baixa do
quintal desnivelado; havia um sem número de vasos de barro, plástico e vidro,
bem como de garrafões de lixívia ou água decapitados , que serviam os intentos
de uma floricultora afincada, a avó de Sofia. Uns no chão, outros no muro de
cimento de cobertura branca, todos davam a sensação de um berçário ou porto de
abrigo. Era assim que Sofia via também o coração dos avós.
Sofia atravessou o pequeno pátio, subiu os primeiros cinco
degraus e seguiu pela escada que virava à direita. No topo da escada conseguiu então
vislumbrar o quintal, uma mistura de largos de cimento onde se podia caminhar
sem tropeçar, muros de pedra empilhada onde as lagartixas se deixavam aquecer
ao sol, caminhos entre quadrados de terra onde a Prunus domestica ganhava protagonismo logo no primeiro lote à
esquerda. Sofia prosseguiu, sob o sol estival de início de tarde de uma região
em que a ceifa havia predominado umas décadas antes, atravessando mais dois
degraus, seguidos de mais um caminho e dois outros degraus, para estar agora
diante de uma pequena escadaria.
Ao subir, espreitou para dentro da garagem. Uma motorizada
velha, azul escura, de metalizados desgastados, estacionada em frente à
escadaria do outro lado da garagem, lembrava os tempos de trabalho do avô de
Sofia, agora substituídos por um tempo longo e escorrido, pontuado por bons
momentos como o que agora a esperava.
- Oh filha! Dá cá um beijinho ao avô! Vieste sozinha? O teu
irmão?
- Ficou em casa, vem mais tarde.
- E a tua mãe e o teu pai?
- O meu pai trouxe-me e já ia trabalhar, a minha mãe ficou a
lavar a loiça e à noite já vai trabalhar também.
- Então está tudo bem. Senta-te aí, puxa o banco e senta-te,
filha.
Sofia traz o banco para junto do avô e senta-se ali, com um
sorriso, a observá-lo a entrançar as cebolas apanhadas no punhado de terra que
cultivavam a 50 metros da casa, nas terras íngremes do lado esquerdo da ladeira
que levava à Ermida de Sta Maria. Nessas terras secas cresciam bem as
leguminosas como a fava e a ervilha (Vicia
faba, Pisum sativum) ou as
cebolas e os alhos (Allium cepa, Allium sativum). Os avós de Sofia
lavravam gentilmente a terra na primavera com pequenos sachos, arejando o solo
e eliminando os microorganismos menos propícios às novas culturas, abriam os
regos e ali deitavam as sementes de parte da sua alimentação do ano seguinte.
Os produtos obtidos desta empreitada sobejavam também para os filhos que viviam
mais perto, embora o verbo sobejar fosse dificilmente aplicável à dimensão da
colheita obtida.
O avô de Sofia prosseguia a sua manipulação dos pés de
cebola e ía construíndo a réstia, aos poucos, fazendo esticar e enrugar a pele
escurecida e arroxeada das suas mãos. O ar da tarde era seco e quente, a
garagem era um pouco mais fresca mas o telhado de zinco não podia aliviar os 40
ºC que se faziam sentir. De vez em quando o avô puxava a boina um pouco para
trás, para deixar secar um pouco a testa humedecida do suor que despontava em
virtude da posição forçada e do movimento contínuo do seu trabalho sob o calor
de Agosto. Nesses momentos breves em que
a mão se deslocava à testa, Sofia podia ver mais uma vez a cor de um cigarro
muito frequente nos dedos indicador e médio direitos, um cigarro tantas vezes
odiado pela avó de Sofia, que praguejava cobras e lagartos pelo cheiro e
neblina que tal hábito ia criando na sua sala de estar de um e cozinha de outro,
sobretudo em tardes de emissão televisiva de tauromaquia espanhola ou noites de
futebol.
A réstia ia crescendo e ia ganhando peso e volume, à medida
que o acto de entrançar a tornava cada vez mais rica em bolbos previamente
limpos da terra e das longas raízes que a ela os prendiam.
- Mais uma. Pões ali, filha? - Sofia recebeu a réstia pronta
e levou-a para junto das restantes, no chão da garagem.
Finda a elaboração das réstias, o avô de Sofia pendurou-as
em grandes anzóis de arame oxidado dispostos ao longo da escada de madeira
encostada à parede interior da garagem, ao lado da porta para a escadaria. A
parede ainda nua de reboco, com tijolos que delimitavam uma janela e porta
temporariamente inacabadas, era o limite do refúgio do avô de Sofia face aos
praguejos da sua avó, quando cada um torrava a paciência do outro, mais do que
o sol de verão, em relação ao nevoeiro tóxico e assassino dos cigarros do avô,
não sem que este ripostasse a fumar mais e com mais intensidade até que a
gritaria era tão aguda que a voz do avô de Sofia se esfumava por entre os
sonoros lampejos de indignação da avó. Chegados a esse limite, era a vez do avô
bater em retirada.
-Vamos para baixo?
Sofia anuiu e lá desceram a escadaria, os caminhos, os
degraus, mas chegados ao largo de cimento o avô virou à direita e entrou para a
casinha, assim denominada por todos quantos frequentavam aquela casa, a
construção de tijolo tão inacabada como a garagem, mas de maior duração, que
albergava pedaços das memórias dos avós, mãe e tios de Sofia, bem como
quaisquer ferramentas úteis à floricultura da avó ou às actividades agrícolas,
ou outras mais lúdicas, do avô.
A casinha era um pedaço da história da família, uma história
de luta e pobreza digna, iniciada num período obscuro da história portuguesa
que marcara a maior parte da vida dos avós de Sofia e a infância e juventude da
sua mãe e tios.”
Mais uma vez, os olhos entreabrem-se e Sofia procura à sua
volta um ponto de referência com a visão desfocada e lúgubre sob a média-luz da
sala de recobro. Um sentimento de agonia apodera-se subitamente de si e o
estômago parece revirar-se na tentativa de controlar um movimento de rejeição,
mas a atitude corporal já não tem retorno e o corpo desenrola um movimento de
vómito que expulsa pouco mais que um pequeno volume de sangue devido à
intubação realizada durante a intervenção cirúrgica. Devido ao seu movimento
repentino ao acordar, as enfermeiras apercebem-se rapidamente da agonia e
chegam a tempo de salvar os lençóis. Segue-se a calmaria e mais um momento de
sono.
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