A casa mais doce que conheci na minha vida foi a casa dos
meus avós maternos. Não me desculpo de não ser a dos meus pais. A casa dos
avós, para mim, tem a grande função de colmatar o que falta na dos pais, e não
raras vezes, há ali mais doçura, é inevitável. São os avós. Há, sobretudo, uma
grande alma carinhosa que nos envolve assim que passamos a soleira da porta,
assim que se abre o postigo e olhamos aqueles maravilhosos olhos velhinhos e
doces...
A minha avó tinha uns olhos azuis do mais profundo que
conheci... de uma alegria e doçura de cada vez que nos via, netos, que nos
abria a porta com o coração. Não havia barreiras, não havia humores, não havia
cobranças... havia um doce anseio pela nossa visita, pela nossa presença, que
estará sempre no meu coração. Ainda hoje, como agora, as lágrimas não se me
contêm pela sua ausência. Não por precisar dela, que não podemos pedir a
ninguém que seja o nosso suporte de vida, mas por saber que ela existia, estava
ali para nos receber sempre de braços abertos, de alegria aberta de par em par,
era uma certeza que tinha...
Mas o mais doce da vida não são as pessoas, não é aquilo que
fazem por nós, é o efeito que têm na nossa existência, é a certeza de que
deixaram uma marca invisível aos olhos dos desavisados mas que, em nós, têm um
profundo sentido. Todos nós temos um efeito naqueles que nos rodeiam, claro,
isto é a essência da ecologia. Mas um efeito leve, passageiro, substituível,
temporário, superficial, que rapidamente a nossa resiliência natural faz
esquecer. Mas há pessoas, extraordinárias, que nos conseguem elevar a uma outra
dimensão, que nos conseguem polir de um modo inesquecível, como uma escultura
em franco desenvolvimento. A cada pancada do martelo no escopro abre-se uma
fenda que deixa antever uma essência desconhecida, novas formas escondidas,
sensação de existir e de ser...
Os meus avós poliram os meus afectos, em muitos sentidos.
Uma paixão pela vida, pelo mais simples e natural, pela essência do quotidiano,
onde tudo fazia sentido, onde o cigarro do meu avô se confundia com a profunda
reflexão dos seus olhos verdes, quem sabe ponderando o seu dia, aventuras,
escolhas, memórias... Na vida há escolhas que nos adoçam, outras que nos
amargam, mas é o facto de termos sido livres para realizar essas escolhas que
faz delas verdadeiras experiências de vida. São verdadeiros momentos de
existência, de exercício de liberdade e de humanidade.
Avô, tenho tanto orgulho em ti... Na paixão com que nos
recebias, na vivacidade com que nos contavas histórias do teu passado, na tua
coragem... Bombeiro, mineiro, cidadão livre quando te foi pedido que, corajoso,
enfrentasses megalómanos e togas para defender que se fizesse justiça a um
homem, a um só homem. Moveste família para longe, mais minas, voltaste e
viveste com a sensação de que cumpriste a tua missão. Porque a justiça, essa,
precisa ser exigida, às vezes arrancada, outras vezes aferroada, para que possa
existir, erguer-se da imundície dos erros e do engano... Mas este teu gesto foi
apenas resultado da tua grande paixão pela vida e pelos teus, da tua forma
apaixonada de existires e de permitires existir, uma paixão umas vezes mais
forte do que o entendível... As minhas memórias estão recheadas do cheiro e
sabor dos caracóis que tão bem temperavas e que, nas tardes quentes de Domingo,
acompanhávamos com Sumol de laranja e pão com manteiga... São saudades
delicadas as que tenho, salpicadas de muito carinho e alegria.
A casa dos meus avós era peculiar. A porta da rua
encontrava-se na zona mais baixa da casa e seguíamos, subindo degraus,
atravessando a sala de estar, a sala de jantar, até à cozinha, até à porta do
quintal. Desviávamos as fitas coloridas, para as moscas uma cascata violenta, e
chegávamos ao pátio, mais baixo, com uma escadaria pela frente que o confinava
em quatro metros quadrados. Havia algo mágico neste pátio. Tinha muitas, muitas
plantas, que a minha avó mantinha com carinho, plantas de folha escura,
carregadinhas de clorofila, que aproveitavam a luz indirecta da forma mais eficiente
que conheciam. Estas plantas nunca conhecerem um stress luminoso, a minha avó
não deixava, e o pátio também não. Coberto pela varanda do andar de cima, tinha
uma abertura apenas, pela frente e para cima, pela escadaria em L. Parecia uma
caixa de cartão cuja abertura é meia tampa, não mais , e cuja subida pela
escadaria permitia aceder ao andar seguinte, o da varanda do primeiro andar e o
da zona mais baixa do quintal, aquele espaço imenso e curioso que os meus avós
partilhavam com o irmão da minha avó, na casa ao lado. Ainda conheci este
quintal amplo onde, ao longo dos anos, viveram galinhas, galos, pintos,
coelhos, pombos, cordeiros, ovelhas, um cão, árvores variadas, plantas e flores
inumeráveis. Onde fazíamos sabão com a minha avó, nas tardes estivais
quentes e luminosas, em que a luz é tão forte que, quando entramos em casa,
precisamos de uns minutos para voltarmos a ver tudo a cores, de forma definida.
Este é o efeito do sol no Alentejo, nunca me esqueço de como nos cega. Naquele
quintal conheci muitas aventuras, entre irmão, primas e amigas, entre apanhar
azeitonas e aprender a curti-las, ou apanhar ameixas e outros frutos, recolher ovos, alimentar
coelhos, dar leite aos cordeiros, e coisas mais violentas a mortais a cada um destes animais. Mal dos humanos, que não podem deixar de matar para comer. Outros que matem, dizemos agora. E lavamos as mão do açougue, mas continuamos a devorar carcaças no prato. Somos omnívoros, e basta. Às plantas, fazíamos coisas moralmente menos agressivas, como desenterrar e entrançar cebolas e alhos. Crochet e tricot, hoje pouco permitido porque todo o mundo dos media nos ocupa mente, olhos e mãos... fazer bonecas de trapos com a minha tia, mais uma minha mãe.
Tive, pelo menos, três. Muita sorte.
Esta foi a casa mais doce que conheci na minha vida. No meio
do Alentejo, no meio da terra seca, dos torrões quebradiços desta terra tão
frágil... mas resoluta em se manter, em existir, em subsistir, com muita ou
pouca água... Frágil porque quebradiça no Verão, tão dourada. Lembra-nos a
solidão nobre, uma solidão que parece mortal, que parece que vai implodir tudo
e todos, num silêncio longínquo e esquecido... mas eis que a fénix renasce em
cada Inverno, nesses períodos gelados, que mais parecem estender essa solidão. Não.
O verde desponta nas planícies, um tapete contínuo de vida que nos revitaliza e invade tudo. Invade o coração, invade a mente de uma frescura perene, que nunca
esqueço, que nunca desaparece.
O que me ficou no coração para a vida foi a doçura dos meus
avós, na casa com esse quintal de primeiro andar, no meio do Alentejo. É essa
doçura que me alumia, que me acolhe, a doçura da simplicidade, da alegria dos muitos
afectos que recebi.
Obrigado, avós, por terem existido e por me terem olhado com
tanta ternura.