quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A descida

As pedras brilhavam ao sol e, imaculadas e polidas, serviam de caminho a mais uma viagem. Para lá da torre norte haveria de ser diferente. Mais escuro, mais sombrio, mais a pique, mais doloroso, mais pesado... Servia sempre para lembrar o quanto custa voltar a este sítio. As nuvens fazem barreira e separam o breu da luz. Não existia aqui esta árvore, pensava. Tinha crescido rápido. O caminho escurecia. As pedras já não brilhavam da mesma forma, os cristais que as compunham eram agora cada vez menos organizados. A matéria tornava-se gradualmente amorfa, cinzenta, escura e fria. Os passos pesavam cada vez mais. Não era fácil deixar a zona luminosa, mas cada vez que a arma era disparada, já sabia o que fazer. A viagem demorava horas, dias, semanas, meses, era difícil contabilizar. Não havia ábacos suficientes no mundo para representar todas as viagens que tivera feito, mais ainda as que julgava ainda ter que fazer. Queria carregar com mais força, ser mais rápida, ir e voltar num só dia, mas a carga não o permitia. Teria que ter mais coragem, faltava ainda muito a percorrer. O sol ardente desvanecia-se e a lua, cheia e gelada, fazia fé de que ia chegar, muito em breve, ao desvio. Finalmente, a torre norte, longa, esguia e bela, representava o fim e o início. O medo instalava-se. Era agora hora de sentir a parte mais difícil da viagem. Parada, reparava que os músculos já ardiam, latejavam e, lentamente, sabia que deixariam de se sentir. A dor física ia passando mas a dormência não deixava que o medo se perdesse. Depois da torre norte, depois do desvio, o frio, breu e silêncio faziam com que se ouvisse a si mesma, confusa e perdida nos passos que a levavam ao final do tormento. Era um caminho que conhecia bem. Percorria-o sozinha, sem ajuda, sem companhia, sem bengala, sem esperança. Tinha de o fazer. A arma disparou. Não sabia desde quando o fazia, mas sabia que tinha de o fazer. Lentamente, sentia o ar gelado e pesado a invadir-lhe os pulmões. Respirava fundo mas o peso no peito era grande. Lutava com todas as forças para ganhar fôlego para o próximo passo, para manter a carga elevada, para continuar a caminhada, mas era sempre uma luta difícil. Um vencedor, logo vencido, mantinha o jogo em movimento. Não havia sonhos por que caminhar, apenas o medo. Medo daquela arma, que disparava e que o punha em andamento. Uma arma dura, poderosa e esmagadora. Não tinha solução, o movimento era um só, para a frente, a caminho da torre norte, pelo desvio e para o escuro, para a subida, ainda mais difícil. Era hora de se aguentar. Delicada e fina como um ramo jovem, não tinha ensaio para o caminho. Teria que o percorrer preparando a brotação do regresso. Teria que aprender, mais uma vez, que a dor se suporta em si mesma apenas quando é real, e que a imaginária não tem fim, não tem mensurabilidade, não tem limites, tudo invade e tudo rouba. A dor real é diferente. Ela tem um corpo, uma fronteira, uma causa e uma cura. A dor imaginária reproduz-se no tempo, amplia-se e recarrega-se com as incertezas e angústias da sua própria existência. É auto-replicativa, transforma-se em ideia, em conceito, em carácter. Mas não é real. Não tem corpo, não tem limites, invade e aniquila a vontade, a esperança e a regra. O caminho que percorre, mais uma vez, lembra-lhe que é preciso deixar a dor imaginária alargar e explodir, destruir e aniquilar para a dor física lhe tomar o lugar, essa sim controlada e controlável. Essa, sim, a cura para a imaginária e a causa de si própria. Os pulmões pesam cada vez mais, a pressão no peito é enorme. Ofegante, expulsa o ar com imenso esforço e olha em frente. O fim do tormento está próximo. Só mais um pouco, mais umas passadas e estará no cume de uma montanha de anos, que se acumularam nas dores que sentiu e que autoinfligiu. Não tem uma mnemónica para a sequência de eventos, mas sabe que a ordem por que se seguiram foi a necessária. A carga pesa, e muito, os músculos doem e retesam-se agora em cada impacto dos pés na rocha escura. Basalto, talvez, sem olivina. Fez-se rápido à superfície e veio de muito longe, não deu tempo para apanhar cristais pelo caminho. Verdes, encerrariam segredos de esperança para encontrar uma cura que não seria necessário criar pela dor. Quase no cume, pode agora preparar o desabar da carga. Lenta e poderosa, ela levita acima dos braços dos músculos endurecidos e não parece mais pesar. Já nem se sente. A dor imaginária desaparece lentamente e a física vai começar. Larga a carga. Restos de sonhos rasgados e mutilados, não são queridos, não são provados, são descargas da dor imaginária, que agora se desvanece. Lentamente, olha em volta. Nuvens negras e densas pairam sobre si, não consegue ver nada para além dos seus braços esticados e não consegue afastá-las porque os músculos não respondem. Cansada, já sabe que vai ter que fechar os olhos e ver o que não quer. Dentro de si, uma pequena esperança brota. Não consegue evitar. A sobrevivência não se anula , não se degrada, não se corrompe. É uma força da natureza que irrompe ainda que o mundo desabe. E como o mundo pode desabar... Sente tonturas. Não tem a certeza se consegue abrir os olhos e olhar para o horizonte curto, também lhe custa ver. Tudo custa, a vida e a morte são contínuas. Os músculos estão melhores, latejam mas reagem aos comandos. O basalto escuro fica, transitoriamente, menos áspero. Vira as costas aos sonhos rasgados, rodando os pés naquela rocha feita de massa homogénea tão feia. Rasgos nas solas dos pés, sob um corpo pesado e cansado, lembram-lhe que o caminho foi feito para ser sentido e não cumprido. A dor física desponta, deixando as certezas de que a vida emerge de novo. A sobrevivência começa a funcionar, sobe a adrenalina, ganha vitalidade. A descida no escuro parece, repentinamente, tão fácil. Nada vê mas em tudo se apoia, nas nuvens, no basalto, nas dores das feridas dos pés, nos músculos em agonia desbravada. O movimento agora é rápido, angustiante mas desejado. Precipita-se na descida. Acelera, quase tropeça, vê tudo mal mas em tudo acredita. Nuvens escuras cada vez menos densas mas que ainda a cegam, e a sobrevivência continua. Corre, acelera, agora com todas as forças que lhe restam. Sem carga pensava ser mais fácil. Mas era apenas mais rápido, efeito de memória curta, menos informação, menos preocupação, mais foco. Seguia, correndo, montanha abaixo, horas, dias, semanas, meses, anos... Mas a descida suavizava e, com menos altitude, as nuvens eram mais rarefeitas e a corrida aliviava. Lá em cima, onde os sonhos rasgados tinham ficado, onde as nuvens espessas e densas cumpriam o seu papel de os esconder e deixar no esquecimento, não era um lugar de vontade própria mas sim de instinto. Lá era o lugar de explosão da dor imaginária, sem limites, sem corpo, aniquiladora das regras pela sua infinitude. Na descida, tudo se torna mais claro. As regras surgem pela dor física e delimitada, lembram um corpo existente. Doem o suficiente para lembrar de respirar, repentinamente, o que se tinha sustido na subida. O peito explode de calor e avança até não poder mais e só vê coragem na sua frente, uma embriaguez de vontades e de alegrias que a fazem chorar. Continua a correr, de lágrimas pesadas e atrozes, que lhe saem de todo o corpo e de todo o pensamento. Dói imenso, imenso, mas dói... que bom... no final do desvio, junto à torre norte, já vislumbra a claridade. Ao longe, linhas de pedras brancas cristalinas brilham, mostrando tantos caminhos quantas as vontades. Em vales sucessivos, despontavam novas árvores, onde ninguém se lembrava que elas existiam. Não se lembrava delas mas estavam lá, pequenas e delicadas, sem nunca terem sido pisadas, ganharam vigor pela descida, pelas lágrimas, pelas dores desejadas.


A brotação é uma viagem de regresso à humanidade e à fragilidade da vida. Quanto mais rápida, melhor. E o medo... serve para nos lembrarmos que a fragilidade ainda existe.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A jorna

Os anos 50 foram particularmente duros para a comunidade dos avós de Sofia.
Nas pequenas vilas ocupadas maioritariamente por trabalhadores à jorna, a maioria das habitações era, em regra, tão pobre que as casas, construídas de taipa e cobertas por telha de canudo, tinham apenas o andar térreo, cujo chão era de terra batida ou tijolo. A porta da rua tinha um postigo por onde permeava a luz do dia. Nem todas eram desprovidas de janelas, tidas então como um luxo e, logo, desnecessárias (1). O facto das casas serem integralmente caiadas conferia-lhes uma leveza e limpeza distintivas, que contrastava com a herança diária da terra seca e empoeirada agarrada à roupa, botas, quando as havia, e pele dos jornaleiros, seus habitantes. Os lenços na cabeça lembravam muito os habitantes de outras regiões mundiais mais agrestes em temperatura e secura, em luminosidade e em desertidão da paisagem, servindo o intento de melhor suportar a jorna de sol a sol, absorvendo o acumulado suor que tanto escorria por entre os cabelos, e protegendo os crânios nos percursos de quilómetros pedestres entre a habitação e o ponto de trabalho dos jornaleiros. Esses, homens ou mulheres, dedicavam-se a esculpir-se numa magreza digna enquanto lavravam, ceifavam ou colhiam o que a mando se determinava.
A imagem que Sofia tinha do esforço e da entrega destes jornaleiros não vinha de ter assistido, décadas antes, à sua demanda, nem provinha de uma qualquer descrição, ainda que pudesse ser em primeira mão da sua própria avó, tão coloridas de emotividade e de dignidade que eram as suas descrições. Não. A imagem provinha de um episódio, caricato e importante, a que Sofia e o irmão assistiram, e que ilustrava bem o que teria sido, em tempos, a verdadeira epopeia daqueles trabalhadores da ceifa e da lavra. A saber.
Um dos primeiros dias de escola de Sofia, num Outubro instável, como se quer que seja para que a rega dos campos seja assegurada no final do estio, era também o primeiro dia de trabalho de uma jornaleira numa lavra de tomate das redondezas. Numa das freguesias historicamente mais pobres dos concelhos da região prosseguia a campanha de apanha do tomate, continuada devido ao prolongamento dos Verões dessa época, muito mais estáveis do que os meses que se lhes seguiam, e felizmente. Esse dia amanheceu limpo, solarengo e promissor de uma jorna longa, somando caixas de tomate e, por conseguinte, muitos escudos, não tantos como os que se gerariam num qualquer call center de hoje, mas o suficiente para que a jornaleira pudesse provir algumas necessidades pessoais simples como uma qualquer outra jovem adulta a viver em casa dos pais. Acontece que o dia se desenrolou de modo contrário ao Verão findo e mais de acordo com a instabilidade que caracterizava o mês de Outubro… e lá veio a chuva… e com o primeiro aguaceiro chegou a violência de outros, maiores e que, em crescendo, foram transformando aquele dia, nascido de uma calmaria delicada, numa verdadeira tormenta para quem não tinha, à mão, um tecto para se abrigar de imediato. Tal foi a invernada que se abateu sobre a região que desencadeou verdadeiras torrentes de adrenalina, quer em Sofia e no irmão, quer na sua mãe e nos seus avós, que se alvoroçaram com a quantidade de cascatas e trovões que se seguiam e que desciam em direção àquelas terras sequiosas. Só conseguiam pensar na jornaleira, que tão alegremente tinha seguido para o seu primeiro dia de trabalho e que deveria, agora, estar não só sob ameaça mas efectivamente a ser atacada por um mar em queda livre.  E, de facto, assim acontecia. Sabia-se que a probabilidade do facto se consumar era, por demais, absoluta, mas ainda havia uma lúgubre esperança de que a jornaleira tivesse tido a sorte de se ter recolhido para um qualquer abrigo, juntamente com os seus camaradas de trabalho…
E eis que o postigo da porta da casa dos avós de Sofia se arrepia com a violência das batidas de uma sombra no exterior, pequena mas não completamente invisível, uma vez que a porta da rua era composta por uma boa parte de madeira, mas também por uma boa parte de vidro martelado, este translúcido e resistente às batidas da sua moldura ante os ventos e as fúrias dos seus utilizadores. A avó de Sofia corre à porta… e eis a nossa jornaleira, pingando água por tudo quanto era canto, nesga ou ameaça de pleno rompimento têxtil, tão grande era a invasão desse mar flutuante por entre os resquícios de espaço entre a pele e a roupa da jorna! Tão grande a invasão hídrica que gerou uma, e maior ainda, evasão de impropérios da boca da jornaleira, que se multiplicava em queixas, desespero e raiva, os quais cresciam em catadupa à medida que ela se ia sentindo em segurança sob o telhado progenitor, ora para tirar a verdadeira imundície de lama dos joelhos para baixo, ora para violentar a restante fardamenta, arrancando-a, aquela que era agora uma verdadeira testemunha da ira dos céus. Não, nao eram “As vinhas da ira” do John Steinbeck, obra que ela mantinha na sua cabeceira e que lia nos seus tempos de dedicação literária, mas eram as tomateiras da ira, as verdadeiras culpadas daquele estado desgraçado em que a jornaleira se encontrava. Tão grande era a raiva pela jorna maldita e amaldiçoada, a qual nem tempo teve de desenvolver saudade à executora, que foi garantido desde logo que jornas iguais não se repetiriam! Tal era o oceano de lama e botas afundadas na lavra que a jornaleira nunca mais quis voltar a ver aquela cena de verdadeira batalha campal, quais homens contra deuses, que mais parecia uma verdadeira trincheira da primeira guerra mundial, embora os ratos estivessem ausentes. Não, nunca mais iria deixar-se enganar pela dita jorna, agora que sabia da verdadeira natureza da mesma e das intempéries a que tal demanda estava sujeita mas, sobretudo, das intempéries para as quais ela própria não estava preparada ou, pelo menos, a que desnecessariamente se sujeitaria, uma vez que eram ausentes da sua vida as condições desumanas e insuficientes que só pelas quais tal jorna se tornaria vital.
E, nesse dia, Sofia percebeu o que representava aquela jorna, uma verdadeira revolução mental, uma convulsão de dimensão universal: trabalhar no campo não era para todos, era uma verdadeira guerra externa e interna, mas muitos não tinham opção e tinham que ganhar essa guerra dupla e, elevando dignidade nas suas boinas, chapéus e lenços, se dedicarem, aí sim, a esculpirem a sua magreza sob o sol ardente ou a chuva ensurdecedora. E se, na época da nossa jornaleira, ainda havia a possibilidade de apanhar o autocarro para a lavra mais próxima ou de encontrar proteção dos infindáveis decímetros de lama com botas a rigor, noutros tempos a realidade não era assim tão tecnológica e funcional, tão taylorizada… A avó de Sofia realçava que tinha tido, no seu passado de ceifeira, muitos quilómetros percorridos a pé e de madrugada, em conjunto com o seu próprio irmão e mãe, a bisavó de Sofia, como tanta gente por esse país interior o fazia também, para chegar à ceifa e ocasionalmente saber, nesse instante, que naquele dia havia jornaleiros suficientes e que já não precisariam de mais mãos competentes. E com pouco mais do que pão e queijo num talego, prometendo pelo menos uma refeição, regressavam a casa pelos mesmos quilómetros antes percorridos, mas agora sob sol ardente ou chuva torrencial, dependendo da estabilidade climatérica daqueles anos, cuja informação escasseia.
A realidade contemporânea da infância de Sofia era mais suave, cheia de alternativas e esperança para quem não queria dedicar-se à jorna, garantindo que o futuro seria menos lamacento e mais glamouroso do que aquele que tinha confrontado as gerações anteriores de trabalhadores do campo. Mas o que mais chocou Sofia foi ver a indignação da jornaleira, antes tão esperançosa de que seria capaz de enfrentar o dia de trabalho pela dignidade que o seu esforço prometia, e agora verdadeiramente derrotada, não a jornaleira, mas a sua própria esperança, que ditava que trabalho é trabalho e só não trabalha quem não quer ou não precisa, pois que os restantes, precisando e querendo, assim sendo, conseguiriam. E Sofia, assustada, a ouvir os sons vibrantes e indignados da jornaleira, enquanto trovoadas e chuvadas fortes continuavam a lavar as empedradas ladeiras que serviam como ruas, percebeu que a jornaleira tinha deixado de acreditar nesse mesmo trabalho no campo, nessa jorna que, décadas antes, tinha sido o ganha-pão de tantos famintos. Tornou-se, no tempo de um só dia, tão indigno, tão difícil e tão agreste que não deixou saudades no coração da jornaleira, nem tão pouco no de Sofia que, ao ver o seu desespero, sentiu uma absoluta compaixão por aquela e por todas as outras jornaleiras e jornaleiros que teriam chegado ao lar no mesmo estado lastimável.


Na escola de Sofia não chovia nem havia lama onde afundar os pés, pelo menos na sala de aula. Felizmente.


(1) António Luis Seixas Felix da Cruz in “A Freguesia de Alvalade”, 1941.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Momentos de doçura

Finalmente acorda.
As enfermeiras levantam-se da secretária, onde fazem toda a vigilância dos sinais vitais dos pacientes no recobro, dos seus movimentos e de toda a papelada técnica que emana de uma intervenção cirúrgica, e dirigem-se a ela.
- Sente-se bem? Já aqui esteve o seu marido, mandou-lhe um beijinho.
Sofia abre brevemente os olhos para ver um relógio desfocado cujos ponteiros marcam quase duas horas, sem se lembrar muito bem se isso correspondia ao dia ou à noite.
- Obrigada. - Responde, no meio de um ligeiro sorriso. Torna a adormecer.

“Numa das muitas tardes em que visitava os avós, umas vezes para lhes fazer uma visita breve, outras para lá passar as noites de Verão enquanto a mãe cumpria o turno noturno na fábrica de transformação do tomate, Sofia sentia mais uma vez a excitação suave, a mesma alegria difusa permanente de outras vezes. A doçura do olhar silvestre do seu avô ou do olhar pacífico da sua avó fazem sempre antever momentos de grande doçura.

Não havia nada como visitar os avós.

Sofia saiu do carro depois de se despedir do pai e percorreu a calçada quente da tarde, subiu os dois degraus no passeio elevado que ladeava a casa dos seus avós e apresentou-se com um pequeno saco na entrada do seu corredor, depois de ter puxado o trinco através do postigo, aberto num sinal de confiança à comunidade.
- Olá avó!!!
- Olá minha rica netinha! Tão linda, a minha Sofia!
A avó de Sofia tinha sempre a expressão mais doce para dar tempero ao espiríto reflexivo de Sofia. Havia algo de sabedoria escondida naqueles olhos azuis, naquele corpo pequeno mas volumoso, em que sobretudo a proeminente barriga tornava a avó de Sofia a mais doce avó do mundo.

- Onde está o avô? Queria dar-lhe um beijinho.
- O teu avô está lá para cima!
A casa dos avós de Sofia tinha uma particularidade, era mais baixa que o quintal e este mais baixo que a garagem. Toda a propriedade se localizava numa região mais elevada, na última rua do lado direito de uma longa ladeira que levava à Ermida de Sta Maria, uma pequena elevação onde se situava uma pequena igreja e que representava, para a pequena vila, um ponto de encontro obrigatório para casais de namorados nas noites de Sábado e para o passeio domingueiro das famílias mais pacatas. A vigilância das planícies em volta, do moinho mais próximo, da estrada para o bairro de S. José ou da mata dos eucaliptos ali à beira, do cemitério, e até da possibilidade atmosférica de se observar a cidade mais próxima era toda feita a partir dos terrenos desta Ermida. Geralmente essa vigilância dava lugar a considerações oportunas e, muitas vezes, repetitivas acerca da evolução que a pequena vila tinha tido desde há muito, do trânsito deveras escasso e da pequenez dos veículos avistados, da construção de algumas casas de gente conhecida e, quase sempre, da localização da casa do observador, caso esta se encontrasse entre os bairros merecedores de serem avistados da dita Ermida.
Sofia seguiu pela casa dos avós, passando do corredor para a sala de jantar, desta para a zona de estar e cozinha e transpôs as fitas coloridas da porta do quintal para subir as escadas de um cinzento fresco, limitadas por uma Hedera helix à direita. A planta cobria os quase dois metros de muro que flanqueavam a escada pela direita e avisava qualquer visitante, pelo seu verde escuro intenso e pela sua presença dramática, que as plantas eram algo cultivado e acarinhado naquela casa. A hera não era a única planta nos primeiros metros da zona mais baixa do quintal desnivelado; havia um sem número de vasos de barro, plástico e vidro, bem como de garrafões de lixívia ou água decapitados , que serviam os intentos de uma floricultora afincada, a avó de Sofia. Uns no chão, outros no muro de cimento de cobertura branca, todos davam a sensação de um berçário ou porto de abrigo. Era assim que Sofia via também o coração dos avós.
Sofia atravessou o pequeno pátio, subiu os primeiros cinco degraus e seguiu pela escada que virava à direita. No topo da escada conseguiu então vislumbrar o quintal, uma mistura de largos de cimento onde se podia caminhar sem tropeçar, muros de pedra empilhada onde as lagartixas se deixavam aquecer ao sol, caminhos entre quadrados de terra onde a Prunus domestica ganhava protagonismo logo no primeiro lote à esquerda. Sofia prosseguiu, sob o sol estival de início de tarde de uma região em que a ceifa havia predominado umas décadas antes, atravessando mais dois degraus, seguidos de mais um caminho e dois outros degraus, para estar agora diante de uma pequena escadaria. 
Ao subir, espreitou para dentro da garagem. Uma motorizada velha, azul escura, de metalizados desgastados, estacionada em frente à escadaria do outro lado da garagem, lembrava os tempos de trabalho do avô de Sofia, agora substituídos por um tempo longo e escorrido, pontuado por bons momentos como o que agora a esperava.
- Oh filha! Dá cá um beijinho ao avô! Vieste sozinha? O teu irmão?
- Ficou em casa, vem mais tarde.
- E a tua mãe e o teu pai?
- O meu pai trouxe-me e já ia trabalhar, a minha mãe ficou a lavar a loiça e à noite já vai trabalhar também.  
- Então está tudo bem. Senta-te aí, puxa o banco e senta-te, filha.
Sofia traz o banco para junto do avô e senta-se ali, com um sorriso, a observá-lo a entrançar as cebolas apanhadas no punhado de terra que cultivavam a 50 metros da casa, nas terras íngremes do lado esquerdo da ladeira que levava à Ermida de Sta Maria. Nessas terras secas cresciam bem as leguminosas como a fava e a ervilha (Vicia faba, Pisum sativum) ou as cebolas e os alhos (Allium cepa, Allium sativum). Os avós de Sofia lavravam gentilmente a terra na primavera com pequenos sachos, arejando o solo e eliminando os microorganismos menos propícios às novas culturas, abriam os regos e ali deitavam as sementes de parte da sua alimentação do ano seguinte. Os produtos obtidos desta empreitada sobejavam também para os filhos que viviam mais perto, embora o verbo sobejar fosse dificilmente aplicável à dimensão da colheita obtida.
O avô de Sofia prosseguia a sua manipulação dos pés de cebola e ía construíndo a réstia, aos poucos, fazendo esticar e enrugar a pele escurecida e arroxeada das suas mãos. O ar da tarde era seco e quente, a garagem era um pouco mais fresca mas o telhado de zinco não podia aliviar os 40 ºC que se faziam sentir. De vez em quando o avô puxava a boina um pouco para trás, para deixar secar um pouco a testa humedecida do suor que despontava em virtude da posição forçada e do movimento contínuo do seu trabalho sob o calor de Agosto.  Nesses momentos breves em que a mão se deslocava à testa, Sofia podia ver mais uma vez a cor de um cigarro muito frequente nos dedos indicador e médio direitos, um cigarro tantas vezes odiado pela avó de Sofia, que praguejava cobras e lagartos pelo cheiro e neblina que tal hábito ia criando na sua sala de estar de um e cozinha de outro, sobretudo em tardes de emissão televisiva de tauromaquia espanhola ou noites de futebol.
A réstia ia crescendo e ia ganhando peso e volume, à medida que o acto de entrançar a tornava cada vez mais rica em bolbos previamente limpos da terra e das longas raízes que a ela os prendiam.
- Mais uma. Pões ali, filha? - Sofia recebeu a réstia pronta e levou-a para junto das restantes, no chão da garagem.
Finda a elaboração das réstias, o avô de Sofia pendurou-as em grandes anzóis de arame oxidado dispostos ao longo da escada de madeira encostada à parede interior da garagem, ao lado da porta para a escadaria. A parede ainda nua de reboco, com tijolos que delimitavam uma janela e porta temporariamente inacabadas, era o limite do refúgio do avô de Sofia face aos praguejos da sua avó, quando cada um torrava a paciência do outro, mais do que o sol de verão, em relação ao nevoeiro tóxico e assassino dos cigarros do avô, não sem que este ripostasse a fumar mais e com mais intensidade até que a gritaria era tão aguda que a voz do avô de Sofia se esfumava por entre os sonoros lampejos de indignação da avó. Chegados a esse limite, era a vez do avô bater em retirada.
-Vamos para baixo?
Sofia anuiu e lá desceram a escadaria, os caminhos, os degraus, mas chegados ao largo de cimento o avô virou à direita e entrou para a casinha, assim denominada por todos quantos frequentavam aquela casa, a construção de tijolo tão inacabada como a garagem, mas de maior duração, que albergava pedaços das memórias dos avós, mãe e tios de Sofia, bem como quaisquer ferramentas úteis à floricultura da avó ou às actividades agrícolas, ou outras mais lúdicas, do avô. 
A casinha era um pedaço da história da família, uma história de luta e pobreza digna, iniciada num período obscuro da história portuguesa que marcara a maior parte da vida dos avós de Sofia e a infância e juventude da sua mãe e tios.”


Mais uma vez, os olhos entreabrem-se e Sofia procura à sua volta um ponto de referência com a visão desfocada e lúgubre sob a média-luz da sala de recobro. Um sentimento de agonia apodera-se subitamente de si e o estômago parece revirar-se na tentativa de controlar um movimento de rejeição, mas a atitude corporal já não tem retorno e o corpo desenrola um movimento de vómito que expulsa pouco mais que um pequeno volume de sangue devido à intubação realizada durante a intervenção cirúrgica. Devido ao seu movimento repentino ao acordar, as enfermeiras apercebem-se rapidamente da agonia e chegam a tempo de salvar os lençóis. Segue-se a calmaria e mais um momento de sono.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A casa mais doce


A casa mais doce que conheci na minha vida foi a casa dos meus avós maternos. Não me desculpo de não ser a dos meus pais. A casa dos avós, para mim, tem a grande função de colmatar o que falta na dos pais, e não raras vezes, há ali mais doçura, é inevitável. São os avós. Há, sobretudo, uma grande alma carinhosa que nos envolve assim que passamos a soleira da porta, assim que se abre o postigo e olhamos aqueles maravilhosos olhos velhinhos e doces...
A minha avó tinha uns olhos azuis do mais profundo que conheci... de uma alegria e doçura de cada vez que nos via, netos, que nos abria a porta com o coração. Não havia barreiras, não havia humores, não havia cobranças... havia um doce anseio pela nossa visita, pela nossa presença, que estará sempre no meu coração. Ainda hoje, como agora, as lágrimas não se me contêm pela sua ausência. Não por precisar dela, que não podemos pedir a ninguém que seja o nosso suporte de vida, mas por saber que ela existia, estava ali para nos receber sempre de braços abertos, de alegria aberta de par em par, era uma certeza que tinha...
Mas o mais doce da vida não são as pessoas, não é aquilo que fazem por nós, é o efeito que têm na nossa existência, é a certeza de que deixaram uma marca invisível aos olhos dos desavisados mas que, em nós, têm um profundo sentido. Todos nós temos um efeito naqueles que nos rodeiam, claro, isto é a essência da ecologia. Mas um efeito leve, passageiro, substituível, temporário, superficial, que rapidamente a nossa resiliência natural faz esquecer. Mas há pessoas, extraordinárias, que nos conseguem elevar a uma outra dimensão, que nos conseguem polir de um modo inesquecível, como uma escultura em franco desenvolvimento. A cada pancada do martelo no escopro abre-se uma fenda que deixa antever uma essência desconhecida, novas formas escondidas, sensação de existir e de ser...
Os meus avós poliram os meus afectos, em muitos sentidos. Uma paixão pela vida, pelo mais simples e natural, pela essência do quotidiano, onde tudo fazia sentido, onde o cigarro do meu avô se confundia com a profunda reflexão dos seus olhos verdes, quem sabe ponderando o seu dia, aventuras, escolhas, memórias... Na vida há escolhas que nos adoçam, outras que nos amargam, mas é o facto de termos sido livres para realizar essas escolhas que faz delas verdadeiras experiências de vida. São verdadeiros momentos de existência, de exercício de liberdade e de humanidade.
Avô, tenho tanto orgulho em ti... Na paixão com que nos recebias, na vivacidade com que nos contavas histórias do teu passado, na tua coragem... Bombeiro, mineiro, cidadão livre quando te foi pedido que, corajoso, enfrentasses megalómanos e togas para defender que se fizesse justiça a um homem, a um só homem. Moveste família para longe, mais minas, voltaste e viveste com a sensação de que cumpriste a tua missão. Porque a justiça, essa, precisa ser exigida, às vezes arrancada, outras vezes aferroada, para que possa existir, erguer-se da imundície dos erros e do engano... Mas este teu gesto foi apenas resultado da tua grande paixão pela vida e pelos teus, da tua forma apaixonada de existires e de permitires existir, uma paixão umas vezes mais forte do que o entendível... As minhas memórias estão recheadas do cheiro e sabor dos caracóis que tão bem temperavas e que, nas tardes quentes de Domingo, acompanhávamos com Sumol de laranja e pão com manteiga... São saudades delicadas as que tenho, salpicadas de muito carinho e alegria.
A casa dos meus avós era peculiar. A porta da rua encontrava-se na zona mais baixa da casa e seguíamos, subindo degraus, atravessando a sala de estar, a sala de jantar, até à cozinha, até à porta do quintal. Desviávamos as fitas coloridas, para as moscas uma cascata violenta, e chegávamos ao pátio, mais baixo, com uma escadaria pela frente que o confinava em quatro metros quadrados. Havia algo mágico neste pátio. Tinha muitas, muitas plantas, que a minha avó mantinha com carinho, plantas de folha escura, carregadinhas de clorofila, que aproveitavam a luz indirecta da forma mais eficiente que conheciam. Estas plantas nunca conhecerem um stress luminoso, a minha avó não deixava, e o pátio também não. Coberto pela varanda do andar de cima, tinha uma abertura apenas, pela frente e para cima, pela escadaria em L. Parecia uma caixa de cartão cuja abertura é meia tampa, não mais , e cuja subida pela escadaria permitia aceder ao andar seguinte, o da varanda do primeiro andar e o da zona mais baixa do quintal, aquele espaço imenso e curioso que os meus avós partilhavam com o irmão da minha avó, na casa ao lado. Ainda conheci este quintal amplo onde, ao longo dos anos, viveram galinhas, galos, pintos, coelhos, pombos, cordeiros, ovelhas, um cão, árvores variadas, plantas e flores inumeráveis. Onde fazíamos sabão com a minha avó, nas tardes estivais quentes e luminosas, em que a luz é tão forte que, quando entramos em casa, precisamos de uns minutos para voltarmos a ver tudo a cores, de forma definida. Este é o efeito do sol no Alentejo, nunca me esqueço de como nos cega. Naquele quintal conheci muitas aventuras, entre irmão, primas e amigas, entre apanhar azeitonas e aprender a curti-las, ou apanhar ameixas e outros frutos, recolher ovos, alimentar coelhos, dar leite aos cordeiros, e coisas mais violentas a mortais a cada um destes animais. Mal dos humanos, que não podem deixar de matar para comer. Outros que matem, dizemos agora. E lavamos as mão do açougue, mas continuamos a devorar carcaças no prato. Somos omnívoros, e basta. Às plantas, fazíamos coisas moralmente menos agressivas, como desenterrar e entrançar cebolas e alhos. Crochet e tricot, hoje pouco permitido porque todo o mundo dos media nos ocupa mente, olhos e mãos... fazer bonecas de trapos com a minha tia, mais uma minha mãe. Tive, pelo menos, três. Muita sorte.

Esta foi a casa mais doce que conheci na minha vida. No meio do Alentejo, no meio da terra seca, dos torrões quebradiços desta terra tão frágil... mas resoluta em se manter, em existir, em subsistir, com muita ou pouca água... Frágil porque quebradiça no Verão, tão dourada. Lembra-nos a solidão nobre, uma solidão que parece mortal, que parece que vai implodir tudo e todos, num silêncio longínquo e esquecido... mas eis que a fénix renasce em cada Inverno, nesses períodos gelados, que mais parecem estender essa solidão. Não. O verde desponta nas planícies, um tapete contínuo de vida que nos revitaliza e invade tudo. Invade o coração, invade a mente de uma frescura perene, que nunca esqueço, que nunca desaparece.

O que me ficou no coração para a vida foi a doçura dos meus avós, na casa com esse quintal de primeiro andar, no meio do Alentejo. É essa doçura que me alumia, que me acolhe, a doçura da simplicidade, da alegria dos muitos afectos que recebi.

Obrigado, avós, por terem existido e por me terem olhado com tanta ternura.